A Tarde

written by Antonio de Castro Alves

A Tarde

— Antonio de Castro Alves

Era a hora em que a tarde se debruça
Lá da crista das serras mais remotas...
E d'araponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que s'embuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando.

Era a hora em que os cardos rumorejam
Como um abrir de bocas inspiradas,
E os angicos as comas espanejam
Pelos dedos das auras perfumadas...
A hora em que as gardênias, que se beijam,
São tí­midas, medrosas desposadas;
E a pedra... A flor... As selvas... Os condores
Gaguejam... Falam... Cantam seus amores!

Hora meiga da Tarde! Como és bela
Quando surges do azul da zona ardente!
... Tu és do céu a pálida donzela,
Que se banha nas termas do oriente...
Quando é gota do banho cada estrela.
Que te rola da espádua refulgente...
E, - prendendo-te a trança a meia lua,
Te enrolas em neblinas seminua!...

Eu amo-te, ó mimosa do infinito!
Tu me lembras o tempo em que era infante.
Inda adora-te o peito do precito
No meio do martí­rio excruciante;
E, se não te dá mais da infí¢ncia o grito
Que menino elevava-te arrogante,
í‰ que agora os martí­rios foram tantos,
Que mesmo para o riso só tem prantos!...

Mas não m'esqueço nunca dos fraguedos
Onde infante selvagem me guiavas,
E os ninhos do sofrer que entre os silvedos
Da embaí­ba nos ramos me apontavas;
Nem, mais tarde, dos lí¢nguidos segredos
De amor do nenufar que enamoravas...
E as tranças mulheris da granadilha!...
E os abraços fogosos da baunilha!...

E te amei tanto â€" cheia de harmonias
A murmurar os cantos da serrana, â€"
A lustrar o broquei das serranias,
A doirar dos rendeiros a cabana...
E te amei tanto â€" í flor das águas frias
Da lagoa agitando a verde cana,
Que sonhava morrer entre os palmares,
Fitando o céu ao tom dos teus cantares!...

Mas hoje, da procela aos estridores,
Sublime, desgrenhada sobre o monte,
Eu quisera fitar-te entre os condores
Das nuvens arruivadas do horizonte...
... Para então, â€" do relí¢mpago aos livores,
Que descobrem do espaço a larga fronte, â€"
Contemplando o infinito..., na floresta
Rolar ao som da funeral orquestra!

About the poet


Antonio de Castro Alves

Antônio Frederico de Castro Alves was a Brazilian poet and playwright, famous for his abolitionist and republican poems. One of the most famous poets of the "Condorism", he won the epithet of "O Poeta dos Escravos" ("Slaves' Poet"). He is the patron of the 7th chair of the Brazilian Academy of Letters. Alves was born in the town of Curralinho (rechristened "Castro Alves" in his honor in 1900), in the Brazilian State of Bahia, to Antônio José Alves, a medician, and Clélia Brasília da Silva Castro, one of the daughters of José Antônio da Silva Castro (a.k.a. "Periquitão", Portuguese for "Big Parakeet"), a proeminent fighter in the 1821–23 Siege of Salvador. In 1853, he was...

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