Canção Do Boêmio

written by Antonio de Castro Alves

Canção Do Boêmio

— Antonio de Castro Alves

Que noite fria! Na deserta rua
Tremem de medo os lampiíµes sombrios.
Densa garoa faz fumar a lua,
Ladram de tédio vinte cães vadios.


Nini formosa! por que assim fugiste?
Embalde o tempo í tua espera conto.
Não vês, não vês?... Meu coração é triste
Como um calouro quando leva ponto.


A passos largos eu percorro a sala
Fumo um cigarro, que filei na escola...
Tudo no quarto de Nini me fala
Embalde fumo... tudo aqui me amola.


Diz-me o relógio cinicando a um canto
'onde está ela que não veio ainda?'
Diz-me a poltrona 'por que tardas tanto?
Quero aquecer-te, rapariga linda.'


Em vão a luz da crepitante vela
De Hugo clareia uma canção ardente;
Tens um idí­lio â€" em tua fronte bela...
Um ditirambo â€" no teu seio quente ...


Pego o compêndio... inspiração sublime
P'ra adormecer... inquietaçíµes tamanhas...
Violei í noite o domicí­lio, ó crime!
Onde dormia uma nação... de aranhas...


Morrer de frio quando o peito é brasa...
Quando a paixão no coração se aninha!?...
Vós todos, todos, que dormis em casa,
Dizei se há dor, que se compare í minha!...


Nini! o horror deste sofrer pungente
Só teu sorriso neste mundo acalma...
Vem aquecer-me em teu olhar ardente...
Nini! tu és o cache-nez dest'alma.


Deus do Boêmio!... São da mesma raça
As andorinhas e o meu anjo louro...
Fogem de mim se a primavera passa
Se já nos campos não há flores de ouro ...


E tu fugiste, pressentindo o inverno.
Mensal inverno do viver boêmio...
Sem te lembrar que por um riso terno
Mesmo eu tomara a primavera a prêmio...


No entanto ainda do Xerez fogoso
Duas garrafas guardo ali... Que minas!
Além de um lado o violão saudoso
Guarda no seio inspiraçíµes divinas ...


Se tu viesses... de meus lábios tristes
Rompera o canto... Que esperança inglória...
Ela esqueceu o que jurar lhe vistes
í" Paulicéia, í" Ponte-grande, ó Glória!...


Batem!... que vejo! Ei-la afinal comigo...
Foram-se as trevas... fabricou-se a luz...
Nini! pequei... dá-me exemplar castigo!
Sejam teus braços... do martí­rio a cruz!...

About the poet


Antonio de Castro Alves

Antônio Frederico de Castro Alves was a Brazilian poet and playwright, famous for his abolitionist and republican poems. One of the most famous poets of the "Condorism", he won the epithet of "O Poeta dos Escravos" ("Slaves' Poet"). He is the patron of the 7th chair of the Brazilian Academy of Letters. Alves was born in the town of Curralinho (rechristened "Castro Alves" in his honor in 1900), in the Brazilian State of Bahia, to Antônio José Alves, a medician, and Clélia Brasília da Silva Castro, one of the daughters of José Antônio da Silva Castro (a.k.a. "Periquitão", Portuguese for "Big Parakeet"), a proeminent fighter in the 1821–23 Siege of Salvador. In 1853, he was...

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