Onde estão os teus poetas, América?
Onde estão eles que não compreendem
os teus meios-dias voluptuosos,
as tuas redes pesadas de corpos eurítmicos,
que se balançam nas sombras úmidas,
as tuas casas de adobe que dormem
debaixo dos cardos,
os teus canaviais que estalam e se
derretem em pingos de mel,
as tuas solidões, por onde o índio passa,
coberto de couro, entre rebanhos de cabras,
as tuas matas que chiam, que trilham,
que assobiam e fervem,
os teus fios telegráficos que enervam a
atmosfera de humores humanos,
os martelos dos teus estaleiros,
os silvos das tuas turbinas,
as torres dos teus altos fornos,
o fumo de toas as tuas chaminés,
e os teus silêncios silvestres que absorvem
e espaço e o tempo?

Onde estão os teus poetas, América?

Onde estão eles que não se debruçam
sobre os trágicos suores das tuas sestas bárbaras?
No teu sangue mestiço crepitam fogos de queimadas,
juízes, tribunais, leis, bolsas, congressos,
escolas, bibliotecas, tudo se estilhaça
em clarões, de repente, nos teus pesadelos irremediáveis.
Ah! Como sabes queimas todos esses
troncos da floresta humana,
e refazer, como a Natureza, a tua ordem pela destruição!

Onde estão os teus poetas, América?

Onde estão eles que não vêem o alarido
construtor dos teus portos,
onde estão eles que não vêem essas bocas
marítimas que te alimentam de homens,
que atulham de combustível as fornalhas
dos teus caldeamentos,
onde estão eles que não vêem todas essas
proas entusiasmadas,
e esses guindastes e essas gruas que se cruzam,
e essas bandeiras que trazem a maresia
dos fiordes e dos golfos,
e essas quilhas e esses cascos veteranos
que romperam ciclones e pampeiros,
e esses mastros que se desarticulam,
e essas cabeças nórdicas e mediterrâneas,
que os teus mormaços vão fundir em bronze,
e esses olhos boreais encharcados de luz
e de verdura,
e esses cabelos muitos finos que procriarão
cabelos muito crespos,
e todos esses pés que fecundarão os teus
desertos!

Teus poetas não são dessa raça de servos
que dançam no compasso de gregos e latinos,
teus poetas devem ter as mãos sujas de
terra , de seiva e limo,
as mãos da criação!
E inocência para adivinhar os teus prodígios,
e agilidade para correr por todo o teu
corpo de ferro, de carvão, de cobre, de
ouro, de trigais, milharais e cafezais!

Teu poeta será ágil e inocente, América!
A alegria será a sua sabedoria,
a liberdade será a sua sabedoria,
e sua poesia será o vagido da tua própria
substância, América, da tua própria
substância lírica e numerosa.

Do teu tumulto ele arrancará uma energia submissa,
e no seu molde múltiplo todas as formas caberão,
e tudo será poesia na força de sua inocência.

América, teus poetas não são dessa raça
de servos que dançam no compasso de
gregos e latinos!


About Guy Wetmore Carryl


Guy Wetmore Carryl (March 4, 1873 – April 1, 1904) was an American humorist and poet. Carryl was born in New York City, the first-born of author Charles Edward Carryl and Mary R. Wetmore. When he was only 20 years old he had his first article published in The New York Times. He graduated from Columbia University in 1895 when he was 22 years of age. During his college years he had written plays for amateur performances. One of his professors was Harry Thurston Peck, who was scandalized by Carryl’s famous quote “It takes two bodies to make one seduction,”... Read more...

Poet of the day

Richard Chenevix Trench was born on September 9, 1807, North Frederick Street, Dublin, Ireland. His father was Richard Trench, his mother Melesina, only grandchild and heiress of Richard Chenevix, Bishop of Waterford, and widow of Colonel St. George. Trench’s home in childhood was Elm Lodge, close to the village of...
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Poem of the day


I have come far enough
from where I was not before
to have seen the things
looking in at me from through the open door

and have walked tonight
by myself
to see the moonlight
and see it as trees

and shapes more fearful Read more...